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       Casas velhas, todas ao redor de um poço muito antigo, uma pequena vila, ninguém à vista. Manhoso caminha até o poço, não há corda, o fundo não pode ser visto, ele enfia a cabeça tentando farejar alguma umidade, consegue até acreditar em algo úmido, é muito delicado, ele apóia os braços na beira do poço para tentar sentir melhor, mas seu movimento faz levantar uma cortina de pó, os grãos brilham na luz que entra lateralmente no poço. Ele sente o gosto da poeira na garganta e a sente se assentando em sua pele suada.

        Sol à frente, passo contínuo, pouca esperança, muito silêncio. Manhoso já não via nada faz um bom tempo quando reparou na marca ao chão, passos dados de algum andante, seguiu e logo adiante outras passadas surgiram dispostas ao chão e se uniram em uma diminuta trilha, já se faziam notar restos humanos, a típica sujeira deixada pelas pessoas por onde quer que passem, algo o esperaria à frente. Seguiu atento, notou mais pegadas se juntando à trilha agora já bem nítida e aos poucos foi retomando a senssação de civilização, sabia que iria encontrar alguém, amistosa ou não, encontraria gente.

- Buá buá já de manhã, esse céu me queima todo, assim num dá!

        Manhoso caminha lentamente sobre o solo ressecado, enquanto o sol vai acarinhando suas costas abatidas. Seus pés se arrastam marcando o chão de sua sola velha, dela pouco sobra. O suor vai erradicando o resto de água do corpo esquálido que ruma lentamente no meio das arestas dessa terra desolada. Por horas a romaria continua sem sinal de encontros, agonizando Manhoso segue pra não secar ao chão, passa por uma cabeça de boi completamente seca, olhos dilacerados, a pele ressecada deixa entrever os ossos, não resta um fio de carne, só casca e osso, nem sinal do resto da carcaça. Ele vira a cabeça com o pé, só faz levantar pó, nada dentro.

        O sol já está exatamente sobre a cabeça da magra figura e nada pelo caminho se foi além da cabeça seca do boi. Não tem sombra à vista ele senta pra descançar. Uma nuvem muito pequena passa perto do sol, mas não faz sombra, ele senta e queima suas retinas sob a luz forte, só para poder apreciar a pequena nuvem, única no céu.